O que eu sinto hoje é uma mistura insalubre de mágoa e ressentimento. E por mais que eu tente destruir esses pensamentos não consigo. Cada bloco que quebro é substituído por dois, maiores e mais pesados que o maldito bloco recém eliminado. É um inferno. É o meu inferno pessoal se construindo em mim mesma. É o caos se expandindo numa velocidade sobrenatural. Eu queria o céu. Tento construí-lo. Mas acho que engenharia e arquitetura nunca foram pontos fortes meus. O que é uma pena. Mas o é e ponto.
Às vezes, muitas vezes, apenas eu acredito nas minhas próprias mentiras. Será que alguém se ilude com as mil e uma histórias que minha mente é capaz de criar? Será que as pessoas realmente acreditam na máscara encantadoramente maquiada? Elas não conseguem perceber além da personagem? Não é possível que todos sejam tão tolos... Isso não pode ser verdade.
Olho para o passado e percebo que as memórias não podem ser apagadas. Todas as cores que fluíram estarão lá para sempre. Uma tatuagem maldita. Quadros esquisitos projetados por uma mente em surto. E muita tinta foi usada. Muitos tons, muitas texturas. Algumas vezes até mesmo odores e perfumes. Quando vejo tudo isso me percebo imobilizada com a lata de tinta branca nas mãos. Uma lata de tinta inútil, pois o passado estará sempre onde deve estar.
O meu amor se perdeu em algum canto qualquer. Achei isso muito infantil. Precisamos mesmo brincar de pique-esconde com todas as rugas que se formam em nossas faces? Eu sinceramente acreditei que isso não fazia mais sentido. Provavelmente me enganei. O que acontece com freqüência. E não será pela última vez. – Detesto enganos!
Já contei até cem. Dei uma volta e não encontrei nada. Contei mais cem para que as coisas mudassem de lugar. Não encontrei nada outra vez. Contei mais uma vez. São 300. – Não. Não encontrei nada interessante. Onde diabos as pessoas são capazes de se esconder? – Chega de contar. Sim. Estou farta disso. Cansei. Vou ficar sentada no meio-fio porque quem se esconde um dia se sentirá fatigado e precisará vir até a luz do sol. E aí está uma das poucas certezas que ouso ter. O que sei é que a luz o sol é necessária, vital. E sei também que o sol pode se esconder por um tempo. Porém sua missão é aquecer e brilhar. E ele o fará. E assim será, pois é rei. Soberano. Aclamado.
O meu quarto de espelhos está impregnado de fumaça. Não há fogo. Apenas uma neblina artificial e incômoda. O meu reflexo agora é embaçado. Infame. Assustador.
As coisas desmoronaram e tudo se mostra incompleto.
A queda é inevitável. – Espero que plumas me salvem de feridas graves.
Estou perdida. A cidade é estranha. Tão nua... Exposta...
Minha mente é um labirinto.
Estou em carne vida jogada numa calçada qualquer. A chuva cai e me lava. O sangue escorre pelas ruas. As lágrimas são invisíveis na água. E em algum lugar desta cidade há uma estrada que eu sei.
A minha chance de olhar a vida com outros olhos existirá?
- Noites como esta estão passando lentamente...
Aline Carvalho
São Vicente, 19 de agosto de 2012.