domingo, 19 de agosto de 2012

Labirinto

            O que eu sinto hoje é uma mistura insalubre de mágoa e ressentimento. E por mais que eu tente destruir esses pensamentos não consigo. Cada bloco que quebro é substituído por dois, maiores e mais pesados que o maldito bloco recém eliminado. É um inferno. É o meu inferno pessoal se construindo em mim mesma. É o caos se expandindo numa velocidade sobrenatural. Eu queria o céu. Tento construí-lo. Mas acho que engenharia e arquitetura nunca foram pontos fortes meus. O que é uma pena. Mas o é e ponto.
            Às vezes, muitas vezes, apenas eu acredito nas minhas próprias mentiras. Será que alguém se ilude com as mil e uma histórias que minha mente é capaz de criar? Será que as pessoas realmente acreditam na máscara encantadoramente maquiada? Elas não conseguem perceber além da personagem? Não é possível que todos sejam tão tolos... Isso não pode ser verdade.
            Olho para o passado e percebo que as memórias não podem ser apagadas. Todas as cores que fluíram estarão lá para sempre. Uma tatuagem maldita. Quadros esquisitos projetados por uma mente em surto. E muita tinta foi usada. Muitos tons, muitas texturas. Algumas vezes até mesmo odores e perfumes. Quando vejo tudo isso me percebo imobilizada com a lata de tinta branca nas mãos. Uma lata de tinta inútil, pois o passado estará sempre onde deve estar.
            O meu amor se perdeu em algum canto qualquer. Achei isso muito infantil. Precisamos mesmo brincar de pique-esconde com todas as rugas que se formam em nossas faces? Eu sinceramente acreditei que isso não fazia mais sentido. Provavelmente me enganei. O que acontece com freqüência. E não será pela última vez. – Detesto enganos!
            Já contei até cem. Dei uma volta e não encontrei nada. Contei mais cem para que as coisas mudassem de lugar. Não encontrei nada outra vez. Contei mais uma vez. São 300. – Não. Não encontrei nada interessante. Onde diabos as pessoas são capazes de se esconder? – Chega de contar. Sim. Estou farta disso. Cansei. Vou ficar sentada no meio-fio porque quem se esconde um dia se sentirá fatigado e precisará vir até a luz do sol. E aí está uma das poucas certezas que ouso ter. O que sei é que a luz o sol é necessária, vital. E sei também que o sol pode se esconder por um tempo. Porém sua missão é aquecer e brilhar. E ele o fará. E assim será, pois é rei. Soberano. Aclamado.
            O meu quarto de espelhos está impregnado de fumaça. Não há fogo. Apenas uma neblina artificial e incômoda. O meu reflexo agora é embaçado. Infame. Assustador.
As coisas desmoronaram e tudo se mostra incompleto.
A queda é inevitável. – Espero que plumas me salvem de feridas graves.
Estou perdida. A cidade é estranha. Tão nua... Exposta...
Minha mente é um labirinto.
Estou em carne vida jogada numa calçada qualquer. A chuva cai e me lava. O sangue escorre pelas ruas. As lágrimas são invisíveis na água. E em algum lugar desta cidade há uma estrada que eu sei.
            A minha chance de olhar a vida com outros olhos existirá?
            - Noites como esta estão passando lentamente...

Aline Carvalho
São Vicente, 19 de agosto de 2012.

terça-feira, 10 de julho de 2012

...


            Quando eu tinha 8 anos decidi que queria ser médica. E Aline Carvalho quando decide alguma coisa... – nem herói grego musculoso e cheio de virtudes consegue fazê-la desvirtuar do tal caminho escolhido.
            Hoje é dia 10 de julho e estamos no ano de 2012. Estou há alguns meses de completar queridos 26 anos. Se eu me tornei médica? Você sabe que não. Acabou que da residência em Psiquiatria que eu tanto queria 18 anos atrás eu me formei em Psicologia. E não há nenhum arrependimento nisso. Nenhum. Pense numa decisão acertada. É esta.
            Há chuva e frio. Acabo de assistir um filme que eu já assisti algumas dezenas de vezes. “Clair de Lune” me encanta mais uma vez por livre escolha do meu computador. O que estou a pensar? Em tudo. Em nada. Nos meus livros, filmes, discos. Nas minhas escolhas. Nos meus arrependimentos. Nas pessoas que deixei para trás – por necessidade ou por escolha. Naquelas as quais me apeguem e não deixei nunca de verdade, pois penso nelas com uma freqüência conscientemente indesejada.
            O passado é um monstro verde cheio de ciúme, inveja e ingratidão. Até que você chega num grau de desenvolvimento onde percebe que sua história é o que deveria ser, já que o que interessa verdadeiramente é o que é e o que está por vir.
            Todos os dias as minhas escolhas me cobram a postura adequada para suportá-las e mantê-las dignamente. E todos os dias eu me aprumo. Visto minha armadura e meu escudo cravejado de brilhantes e lindos rubis e saio à luta. Pois é o que se tem pra fazer. Todos os dias eu acordo e penso que algo bom deve surgir. Não o faço por esperar. Esperança nunca foi a palavra certa para definir qualquer atitude ou pensamento meu. O faço porque plantei mais sementes que muito jardineiro aposentado. O faço, pois sei que amanhã não se sabe. O faço, pois ainda que seja uma, alguma semente germinará. E eu cuidarei da muda que tiver de cuidar. E Aline tende a ir até o fim. E todos nós veremos o carvalho forte e belo. Pois é assim que tem que ser. E os móveis que decorarão a minha bela casa serão feitos deste carvalho. E todos irão sorrir sem saber de absolutamente nada sobre a mesa de jantar ou sobre a escrivaninha do meu quarto.
            O que eu quero dizer? Francamente não sei. Eu apenas disse o que tive vontade. E agora vou partir e abandonar esse mundo mais uma vez. Pelo menos até o próximo instante onde uma página qualquer chamará minha atenção e me levará para um mundo de onde eu vou para milhares de outros tantos.

Aline Carvalho Silva
São Vicente, 10 de julho de 2012.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Felipe...



De repente nada mais faz sentido. O chão que estava sob meus pés já não é algo palpável. Sabe quando o céu sobre sua cabeça ficou negro e você nem percebeu? Sinto isso agora. Sinto que o tempo passou e eu simplesmente esqueci de verificar as horas. Nem sei onde tudo se perdeu. Em que momento o “nós” deixou de existir e “eu” passou a ser em dobro?
Eu te amei. Te amaria para sempre. Sim, eu amaria. Seu rosto, toda vez que eu o olhava, meu coração se iluminava de um modo singular. Talvez eu jamais sinta isso outra vez. Estou com o sentimento de “foi eterno enquanto durou”. Acho que isso é bom. Sim, é bom! Será que fizemos tudo que era possível? Eu acredito que sim. Preciso acreditar. Não aceito sentir como se tivesse deixado escapar algo. Não posso me sentir assim. Não posso. Não sentirei.
Mil anos, esperei por você mil anos. E eu sei, somente eu sei o quanto mil anos significam. É muito tempo. Sem você me arrisco a dizer que uma eternidade não consumiria tanto os ponteiros de um relógio. Nem que eu viva outros mil esquecerei a decepção diante de cada rosto que não se mostrava o seu enquanto caminhava só a tua procura. Quantas vezes eu me vi cansada e em minha mente vislumbrei o cessar? Quantas vezes... Foram tantas... Não quero pensar ou falar sobre isso. Ainda dói a lembrança daquele tempo sem você. Talvez sempre doa.
E eu te conheci. Foi épico. Quase mágico. E eu te amei. Cada fôlego meu era de amor. Cada toque era apaixonado. Cada segundo tinha a energia de toda uma vida. Nem sei se dói mesmo o "não ser mais" sua, pra você, com você. A dúvida paira, porque estar com você foi tão bom... E me ater ao “não estar”, só porque ele o é em tempo presente seria cruel, mais que isso, injusto com o que fomos um para o outro.
E eu ainda te amo. E te amarei para sempre. Seja lá quanto tempo “para sempre” signifique. A magia ainda percorre meu corpo. Circula através do meu sangue. Ainda me energiza. Pois eu te amarei sempre e tanto...

Aline Carvalho
Santos, 06 de janeiro e 2012.