terça-feira, 10 de julho de 2012

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            Quando eu tinha 8 anos decidi que queria ser médica. E Aline Carvalho quando decide alguma coisa... – nem herói grego musculoso e cheio de virtudes consegue fazê-la desvirtuar do tal caminho escolhido.
            Hoje é dia 10 de julho e estamos no ano de 2012. Estou há alguns meses de completar queridos 26 anos. Se eu me tornei médica? Você sabe que não. Acabou que da residência em Psiquiatria que eu tanto queria 18 anos atrás eu me formei em Psicologia. E não há nenhum arrependimento nisso. Nenhum. Pense numa decisão acertada. É esta.
            Há chuva e frio. Acabo de assistir um filme que eu já assisti algumas dezenas de vezes. “Clair de Lune” me encanta mais uma vez por livre escolha do meu computador. O que estou a pensar? Em tudo. Em nada. Nos meus livros, filmes, discos. Nas minhas escolhas. Nos meus arrependimentos. Nas pessoas que deixei para trás – por necessidade ou por escolha. Naquelas as quais me apeguem e não deixei nunca de verdade, pois penso nelas com uma freqüência conscientemente indesejada.
            O passado é um monstro verde cheio de ciúme, inveja e ingratidão. Até que você chega num grau de desenvolvimento onde percebe que sua história é o que deveria ser, já que o que interessa verdadeiramente é o que é e o que está por vir.
            Todos os dias as minhas escolhas me cobram a postura adequada para suportá-las e mantê-las dignamente. E todos os dias eu me aprumo. Visto minha armadura e meu escudo cravejado de brilhantes e lindos rubis e saio à luta. Pois é o que se tem pra fazer. Todos os dias eu acordo e penso que algo bom deve surgir. Não o faço por esperar. Esperança nunca foi a palavra certa para definir qualquer atitude ou pensamento meu. O faço porque plantei mais sementes que muito jardineiro aposentado. O faço, pois sei que amanhã não se sabe. O faço, pois ainda que seja uma, alguma semente germinará. E eu cuidarei da muda que tiver de cuidar. E Aline tende a ir até o fim. E todos nós veremos o carvalho forte e belo. Pois é assim que tem que ser. E os móveis que decorarão a minha bela casa serão feitos deste carvalho. E todos irão sorrir sem saber de absolutamente nada sobre a mesa de jantar ou sobre a escrivaninha do meu quarto.
            O que eu quero dizer? Francamente não sei. Eu apenas disse o que tive vontade. E agora vou partir e abandonar esse mundo mais uma vez. Pelo menos até o próximo instante onde uma página qualquer chamará minha atenção e me levará para um mundo de onde eu vou para milhares de outros tantos.

Aline Carvalho Silva
São Vicente, 10 de julho de 2012.